Meritocracia não existe no Capitalismo e eu te explico o(s) motivo(s).

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Persiste no debate brasileiro a divisão entre os que “acreditam em Meritocracia” e os que “não acreditam em Meritocracia”.

É interessante notar que não se trata de uma questão de a Meritocracia ser um fato ou não, mas sim uma questão de fé, onde alguns acreditam e outros não. Para o nosso bem, acreditar ou não acreditar em fatos não os faz existir ou desaparecer. A questão, portanto, é se a Meritocracia existe ou não.

É preciso assumir desde já que o debate sobre Meritocracia é principalmente sobre o porquê de alguns terem tantos recursos (dinheiro, bens, etc), enquanto outros dispõem de quase nenhum.

Outra coisa interessante a ser dita é que quem “não acredita na Meritocracia” passaria a “acreditar” se “todos tivessem oportunidades iguais”.

Pois digamos que sim, que amanhã no Brasil todos nós acordássemos com oportunidades iguais.

Daqui a 10 anos alguns de nós estariam mais ricos e outros mais pobres, alguns investiram, outros apenas gastariam, portanto nossos filhos talvez fossem ricos, mas talvez fossem pobres, e logo não existiria essa igualdade de oportunidades outra vez.

Podem até surgir soluções fáceis e inócuas como “acabar com as heranças”, mas isso não impediria um rico de ter matriculado seu filho na melhor escola do país, de ter lhe dado dinheiro pra fazer investimentos, de lhe ter proporcionado melhor alimentação, saúde, etc.

Tampouco evitaria de um pai rico dar imóveis e outros bens em vida ao filho, fugindo assim da tola ideia de “acabarmos com as heranças para termos as mesmas oportunidades”.

O que não estamos percebendo?

O que nos escapa ao debater meritocracia é entender como o mundo funciona na prática.

A Meritocracia parte do princípio de que nós deveríamos ter oportunidades iguais e então poderíamos recompensar as pessoas pelos seus esforços de maneira justa e igualitária.

Mas…

Nós recompensamos as pessoas pelos seus esforços?

Digamos que você se dedique por anos cursando enfermagem — um curso que exige técnica e dedicação — e então entre na profissão. Seu posto de trabalho implica em lidar cotidianamente com a vida — e por vezes a morte — de pacientes.

Qualquer erro técnico seu pode ser literalmente fatal.

E na outra ponta temos um youtuber que recebe em dólares para abrir uma caixa de um produto e dizer o que achou dele. Além das visualizações do vídeo as empresas pagam -no, literalmente, para abrir as caixas e dizer o que achou dos produtos. Ele não tem nenhuma expertise técnica, apenas é um entusiasta de tecnologia, suas análises também não implicam em nenhum risco de morte, então qualquer falha que cometa é banal.

Seu trabalho é tão fácil como fazer uma simples apresentação escolar.

Por que o youtuber é mais recompensado?

Existem alguns fatores que podem explicar isso e seguem algum deles:

  • Enquanto a enfermeira atende um paciente por vez, o youtuber atende a milhares por minuto;
  • Os vídeos antigos do youtuber continuam recebendo views, enquanto que o trabalho passado da enfermeira, se esta não tiver feito algum investimento, não lhe rende dinheiro algum.

Observe que, pra continuar “fazendo dinheiro” com vídeos antigos o youtuber não precisa fazer esforço extra algum; observe também que para atender milhares de telespectadores se faz menor esforço do que atender a um único paciente em estado terminal.

Em suma, o youtuber consegue atender mais demandas, com menos esforço.

O conceito de eficiência é fazer mais com menos, então podemos dizer que, pra fins de obtenção de riqueza, o youtuber que abre caixas de produtos é mais eficiente que uma enfermeira que salva vidas.

Eu sei que essa última afirmação soa controversa e talvez vá contra o seu senso moral de justiça, mas é como o mundo funciona.

Isso explica o porquê do Neymar ganhar mais dinheiro que a Marta: não importa que ela tenha mais títulos ou tenha se esforçado mais, nós simplesmente decidimos (por motivos diversos e subjetivos) valorizar mais o Neymar. Assistimos mais quando o Neymar está no jogo e isso implica nas marcas pagarem mais a ele do quê a ela.

Isso também explica alguns youtubers ganharem mais que outros.

Entenda o por quê.

Existem diversas teorias do valor, as mais proeminentes são a do valor-trabalho e a da utilidade marginal [decrescente].

A teoria do valor-trabalho tem como seus principais defensores David Ricardo, Adam Smith e Karl Marx.

Essa teoria fala que o valor é oriundo da quantidade de trabalho que colocamos em algo. Perceba agora que essa teoria é a mais compatível com o “esforço” da meritocracia.

A teoria do valor-trabalho é a base de todo trabalho de Marx, entretanto as pessoas que se afeiçoam com o marxismo são as primeiras a torcer o nariz para a meritocracia; já os opositores políticos dos marxistas, pelo contrário, tendem a concordar com Marx e afirmam que esforço gera valor, o que é muito curioso.

Mas nós já sabemos que no mundo que vivemos esforço não gera valor.

Portanto, a teoria que melhor descreve como remuneramos as pessoas é a da utilidade marginal, defendida por Menger e Bohm Bawerk. Teoria essa que diz, de forma bem resumida, que valorizamos as coisas de maneira subjetiva a depender da situação que nos encontramos.

Exemplificando, se alguém lhe batesse à porta pra lhe vender um copo d’água a R$ 20 provavelmente você diria que essa pessoa é louca de querer lhe oferecer algo tão banal a esse preço, mas em um deserto e morrendo de sede você talvez pagaria R$ 40 pelo mesmo copo d’água.

Perceba que isso envolve não só uma questão de oferta e demanda (na sua casa abunda água, diferentemente do deserto), mas também o componente subjetivo de você desejar aquilo (quanto de sede você tem).

Apesar de o preço ser objetivo, ou seja, R$ 40 ser indiscutivelmente mais do quê R$ 20, o valor é subjetivo, ou seja, “caro” ou “barato” varia de acordo com a sua situação.

Isso quer dizer que o nosso desejo e a disponibilidade do bem/serviço [lei da oferta e demanda]faz com que nós, a despeito do esforço envolvido, julguemos o preço como justo ou injusto.

Isso sempre me lembra quando o pai de um amigo queria trocar um som automotivo, estimado no valor de R$ 12.000,00, por um passarinho.

O meu amigo bradou para o pai :

— Mas o senhor vai sair perdendo!

E o pai respondeu:

— Perdendo como se eu quero o passarinho?

Meritocracia não existe porque, fundamentalmente, decidimos o valor das coisas de forma subjetiva. O que é importante pra você talvez não seja importante pra mim, e tudo bem, porque somos diferentes e livres pra isso.

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